Ao chegar em casa me joguei no sofá. Sentia tanta dor que já não enxergava nada, por causa das lágrimas. O rosto duro e enfurecido. Por que diabos todos ficam perguntando se estou bem? Precisam mesmo que eu responda o que está obvio, estampado no meu rosto? Os punhos cerrados latejam aguardando o momento em que eu decida esmurrar o próximo ser vivo que pergunte qualquer coisa idiota. Certamente a parede é que vai sofrer mais tarde. Quando algo como isso acontece não precisamos dar explicações ou refletir sobre o assunto. Quero dizer, quando algo exatamente assim acontece. Nada que seja "como isso" chega perto do que aconteceu.
Tomei um banho e abri uma garrafa de vinho, tentei lembrar do seu rosto mas minha cabeça já estava pregando uma peça em mim. Olhei o porta-retrato. Seu olhar era tão alegre e corajoso. Como poderia aguentar as pessoas me torturando com perguntas, se eu queria era fugir de tudo e ir ao seu encontro? Não poderia é claro. O engraçado é que eu quase estive no seu lugar há alguns meses quando fiz aquela cirurgia. Deveria ser eu. Você sempre teve tanta coragem pra fazer tudo, sempre topava tudo. Eu sempre com o pé atrás. É muito estranho olhar para o seu lado da cama e pensar que vai ficar vazio. Então quando termino o vinho já estou dormente e quero ficar dormindo para sempre. Abraço seu travesseiro com tanta força que ele some em meus braços. O sono vem pesado.
Poucas horas depois o sol no rosto me desperta, como quem diz: vamos tentar mais uma vez.
Olho para seu lado da cama e encaro o vazio por um tempo.
Tiro a foto do porta retratos e enfio no bolso. Sua nova casa.

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